Terça, 24 Novembro 2020

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O alto risco de trombose na pandemia

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O alto risco de trombose na pandemia

A falta de movimentação predispõe e favorece a ocorrência da trombose 

Embora todos os dias surjam notícias sobre um novo tipo de tratamento para o CoronaVírus, devemos tomar muito cuidado com as informações que recebemos, uma vez que não existem curas milagrosas para uma doença que, infelizmente, não conhecemos muito bem. É muito importante frisar que ainda não existe um medicamento específico para o Sars Cov-2, o vírus causador da COVID-19, e que as pesquisas laboratoriais na busca por uma vacina que atue na sua prevenção encontra-se em estágio inicial de desenvolvimento.

Em função desta realidade científica, devemos fazer a nossa parte e garantir uma saúde física e mental que nos proteja. Só isto poderá contribuir para que o nosso sistema imunológico esteja preparado para a guerra contra o COVID-19.

Beber água regularmente, se alimentar e dormir bem, tomar sol e se exercitar diariamente são medidas preventivas importantes nesse momento. Devemos lembrar também que por conta da quarentena estamos mais tempo em casa, sentados, deitados, ou seja, com pouca movimentação, o que predispõe e favorece a ocorrência da trombose. Que nada mais é, numa linguagem leiga, do que a formação de um coágulo que pode obstruir a circulação sanguínea. Nosso sistema circulatório é formado pelo coração, assim como pelos vasos sanguíneos, que são as artérias e as veias.

Quando o trombo obstrui a artéria, pode ocorrer uma isquemia do órgão ou tecidos nutridos pela mesma. Seo trombo obstruir uma veia, além de causar represamento do sangue e edema a montante do local acometido, o trombo pode se deslocar e se alojar no pulmão. Nestas circunstâncias, se o volume do trombo for grande, poder ocorrer colapso cardiorrespiratório e morte do paciente

Paciente com covid:

Estudos recentes indicam que o paciente infectado pelo Covid-19 tem um risco maior de ser acometido por uma trombose. Não bastasse o quadro infecioso,o COVID-19 provoca um processo inflamatório descontrolado e desordenado. O que, além de destruir células, principalmente as pulmonares, causa um processo pró-trombótico, aumentando e muito o risco de trombose no paciente - mesmo nos estágios iniciais da doença.

Por isso é recomendável que fiquemos sempre atentos a qualquer sinal e sintoma que possa indicar que uma trombose, ou embolia pulmonar possaestar acontecendo. Os principaissinais clínicos da doençasâo: dor e inchaço nas pernas, dor torácica, piora repentina de falta de ar e, mais raramente, escarro com sangue. Qualquer uma destas ocorrências, irá exigir uma consulta urgente com um cirurgião vascular. E nos casos mais graves, a internação em um Pronto-Socorro.

Outros fatores que precisam ser levados em consideração e que aumentam os riscos são: história pessoal ou familiar de trombofilia, história prévia de trombose, e de embolia pulmonar. Além da avaliação dos sintomas e dos sinais ao exame físico, o método inicial de diagnóstico é o Doppler Ultrassom, habitualmente dos membros inferiores, que é a região do corpo mais frequentemente acometidao pela trombose.

Hoje, a maioria dos consultórios vasculares é equipada para fazer esse exame mas, caso os sintomas sejam mais graves e haja suspeita de embolia pulmonar, pode ser necessária a realização de uma tomografia computadorizada, que deve ser feita em ambiente hospitalar.

Como disse anteriormente, inúmeros estudos vêm confirmando que o risco de trombose é maior em pacientes infectados com o COVID-19, e que isso está associado a quadros mais graves da doença ecom efeito, a um elevado risco de morte.

Aparentemente, os pacientes que recebem anticoagulantes, mesmo nos estágios iniciais da doença, evoluem para um melhor prognóstico. Mas, isso é uma decisão médica, que deve se basear na análise de caso a caso.

Por outro lado, o anticoagulante não possui o efeito de diminuir o poder de transmissão ou infecção do coronavírus (COVID-19), que é elevado. O uso de anticoagulante, independente da posologia, seja ele via oral, subcutânea ou endovenosa, diminui o risco de trombose e o processo inflamatório. E, aparentemente, reduz o risco das formas mais graves da doença e de morte.

Recentemente, foi verificado em estudos necroscópicos realizados por pesquisadores brasileiros e estrangeiros que, nos pacientes que evoluem para óbito, nos pequenos vasos da periferia do pulmão, se acumulam trombos que dificultam a oxigenação do sangue. Dessa forma, nessas situações, estão sendo utilizadas quantidades maiores de anticoagulantes, chamadas de doses terapêuticas.

Existe igualmente o risco de sangramento quando se faz o uso de anticoagulantes; por isso, seu uso deve ser indicado e monitorado por médico que tenha experiência com seu manuseio. Em alguns pacientes, o risco é maior e até mesmo contraindicado, como é o caso de pacientes muito idosos e portadores de comorbidades como insuficiência renal ou hepática, que tenham história de cirurgia ou acidente vascular cerebral recente (AVC – conhecido como derrame), hipertensos graves etc.

Um outro fator importante é que o uso de alguns medicamentos pode aumentar ou diminuir seus efeitos, e, portanto, isso deve ser muito bem controlado. Vale citar. por exemplo, alguns antivirais, antibióticos, a cloroquina e a hidroxicloroquina, que vêm sendo usados no tratamento da COVID-19, cujos efeitos podem potencializar os efeitos dos anticoagulante e causar hemorragias.

É importante sublinhar que os anticoagulantes não eliminam os trombos, mas impedem que eles continuem se formando, que se desprendam e migrem para outras regiões, como os pulmões (embolia).

No caso de o trombo ser pequeno e localizado, o organismo, através de enzimas trombolíticas intrínsecas, pode reabsorvê-lo total ou parcialmente , em um processo lento. Mas, no caso do trombo não ser completamente reabsorvido, podem ocorrer sequelas crônicas em maior ou menor grau no órgão ou membro acometido.

Existem duas formas principais de tratamento fibrinolítico: a infusão de drogas (trombolíticas ou fibrinolíticas – são substâncias que dissolvem o trombo ), que podem ser administradas na corrente sanguínea ou dentro do próprio trombo (trombectomia farmacomecânica), com auxílio de cateteres .

Essas drogas têm o inconveniente de possuir ação no restante do organismo, por isso, aumentam o risco de sangramento em outros locais. Os cateteres permitem a aspiração ou sucção do trombo, tornando possível infundir menores doses do agente fibrinolítico e, dessa forma, diminuindo o risco de sangramento.

No momento, o que se sabe é que, em pacientes graves que necessitam de internação em UTI, com respiração através da ajuda de aparelhos, existe um risco muito aumentado de trombose principalmente nos pequenos vasos pulmonares.

De uma forma geral, em qualquer paciente internado na UTI sem COVID-19, existe risco de embolia pulmonar. Caso ela comprometa os grandes vasos, pode causar falência cardiorrespiratória aguda e, eventualmente, morte. Nesses casos, é indicada a retirada do trombo, o que pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Nos pacientes com COVID-19, não existe estudo que tenha verificado se há benefício com a trombectomia farmacomecânica por cateter. Neste sentido, estamos desenvolvendo no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo, um protocolo de pesquisa que irá investigar e checar esses dados. 

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